Sou do Porto, tripeira de gema. Nasci ao som de carago e de mães a chamar aos filhos, filhos da puta. As bacas, a mãee, o paii soaram-me no ouvido toda a vida. Temos uma linguagem musical, sem preconceitos, amiga e quente.
É assim quente a solicitude nos mercados, onde as mulheres envoltas em xailes, aventais bordados, meias grossas segurando chinelos nos abordam mostrando couves, grelos, sardinha da grande ou da pequenina. Aqui somos aquecidos ao som de moor, querida e filhinha… E entre tanto amoor, escolhemos a fruta, a hortaliça e o peixe. Confesso que adoro os mercados, as cores, os cheiros, aquelas mulheres que apregoam ao ar enquanto para o lado contam as desgraças que lhes vão nas almas, em casa. A comida, e então a fruta tem outro sabor. As flores são mais vistosas, duram mais nas jarras.
São quentes as zangas, quando entre berros as gentes se zangam. Berram as comadres, as vizinhas, a mulher e o marido. Voam pratos, murros e estalos, ao som de foda-se, filho da puta e carago…no fim, já sem voz, abraçam-se todos, chorando e prometendo amizade eterna. São assim as pessoas do Porto.
Até no trabalho…era eu ainda imberbe, muito diligente, querendo mostrar trabalho. Apanho com um chefe que entre cada quatro palavras, soltava uma daquelas que musicavam a pancadaria. Sim, mesmo em conversa formal. Do género: Tu estás a ver, porra, carago, onde isto vai dar. É mesmo de filho da puta…e assim continuava. Confesso que era difícil seguir-lhe o raciocínio, com tanta distracção pelo meio.
Ólhaaa a sardinhaaaa. Ó moor, é baratinhaaaaa.